Por exemplo: o papel do Estado no capital de risco, no financiamento dos primeiros passos da vida de um potencial negócio, ou seja, a fase "seed" ("semente") ou mesmo "pré-seed".
Uma ideia de negócio realmente inovadora, especialmente se for no campo tecnológico, é impossível de ser sustentada, nessas fases, por um plano de negócios sério e sólido. Não há bases para justificar projecções, estimativas, planos rigorosos. É muito mais "feeling", conhecimento não quantificável sem deixar por isso de ser importante. Não há volta a dar-lhe, é mesmo assim, é a natureza das coisas.
Por isso é que o empreendedor e autor da ideia, não possuindo capital próprio, tem que recorrer tipicamente a um business angel. Ou seja, tem que ser apoiado por alguém que aposta dinheiro seu, que seguramente não lhe faz falta para a sua subsistência e do qual não tem que prestar contas a ninguém. Espera o investidor obter um lucro muito grande com este seu investimento, mas está completamente consciente de que o risco é grande.
Mais: o business angel sabe que é muito reduzida a probabilidade de uma ideia destas se transformar num negócio lucrativo. Sabe que um projecto destes, visto isoladamente, é um projecto que provavelmente vai falhar. Por isso é que uma estratégia de investimento em ideias inovadoras implica uma aposta paralela em vários potenciais negócios independentes, cada um deles muito arriscado mas ao mesmo tempo potencialmente muito lucrativo. A maior parte deles falhará, mas possivelmente basta que um dê certo para compensar largamente todas as outras perdas. Ou seja, o business angel é um investidor racional, sensato, mas a sua filosofia de investimento dispensa estudos económicos rigorosos que são impossíveis de realizar. Pela natureza dos próprios negócios nesta fase.
Ora o que é que tem acontecido com os business angels portugueses (e em grau menor com os europeus), em comparação com os americanos (ou chineses, lá por isso)? É que não são verdadeiros business angels, que gerem o seu dinheiro, mas sim gestores de património alheio! São funcionários de empresas de investimento "de risco" que têm que prestar contas aos seus accionistas. Não podem justificar-se com um "olhe, investi aqui o vosso dinheiro porque me cheirou a bom negócio"... E por isso defendem-se exigindo estudos, pareceres, planos, etc., completamente irrealistas: acabam por não investir nem nunca encontrar "bons projectos".
O problema é que, na ausência de verdadeiros business angels com capacidade financeira e perfil adequados, também não é papel do Estado investir com base no "feeling". Não sabe nem deve. Por isso, a solução para favorecer o aparecimento de novos projectos em fases muito iniciais será o Estado "alavancar" o investimento de business angels privados, que arriscam o seu dinheiro também, acompanhado por uma participação complementar muito significativa de fundos públicos. O Estado tem que se preparar para entregar capital para gestão privada, com risco elevado, aceitando que o critério de investimento é o mesmo que o privado usa para si. Ou seja, a garantia será apenas que o business angel faz ao dinheiro público exactamente o mesmo que faz ao seu próprio dinheiro, e que todo o processo é auditado com grande rigor.
Estará o Estado consciente de que não há alternativa se quiser actuar com eficácia neste campo? O PS não está e aposta em Planos Tecnológicos...
(Texto baseado neste de Novembro passado.)
AAN
Filipa Martins
João Espinho
Jorge Fonseca Dias
LR
Paulo Gorjão
Rui A.
TAF
Vasco Campilho
Vítor Palmilha
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