Tive algumas hesitações em aceitar o convite para participar neste blog, que generosamente o Vasco Campilho me endereçou. Não sou militante do PSD, nem conheço pessoalmente o Pedro Passos Coelho. De resto, a ideia política que dele tinha era apenas a de ex-presidente da JSD, o que não mo recomendava especialmente.
Confesso, todavia, que as intervenções que escutei do agora candidato a líder do PSD me causaram boa impressão. Passos Coelho aparece desprendido de quaisquer responsabilidades governativas recentes ou pretéritas, apresentou-se frontalmente sem grupos ou «notáveis» a apoiá-lo, afirmou-se como «reformista e liberal», sugeriu um conjunto de ideias interessantes sobre o que entende poder vir a ser um futuro governo orientado por si, e demonstrou uma capacidade enorme de falar para o País e não apenas para as cada vez mais limitadas fronteiras do PSD. Por outro lado, Pedro Passos Coelho fez na sua vida pessoal e política o que deve ser feito: teve um lugar de grande importância no partido, que lhe poderia ter garantido o futuro político e profissional, mas optou por sair e notabilizar-se académica e profissionalmente. Só depois disso regressou à política. Caso raro, talvez único na política portuguesa dos nossos tempos, e merecedor de público reconhecimento.
Portanto, se o meu «apoio» à candidatura de Passos Coelho faz algum sentido, ele é o de me rever na mensagem liberal do candidato e de ser um desses muitos milhões de cidadãos eleitores portugueses de quem o PSD se tem esquecido nos últimos anos, mas que gostariam de ouvir o partido charneira da direita portuguesa a dizer coisas que lhes possam interessar.
Na verdade, se as origens do PSD (PPD) são inteiramente liberais, desde logo, ainda com a «Ala Liberal» dos tempos de Marcelo Caetano, donde nasceria o partido no pós-25 de Abril, e com a orientação ideológica e pragmática que lhe imprimiu Francisco Sá Carneiro, o PSD afastou-se do liberalismo quase imediatamente a seguir à morte do seu fundador. Pelo contrário, o discurso social-democratizou-se com Balsemão, e a prática governativa de Cavaco Silva foi assumidamente keynesiana e intervencionista, defensora de um Estado Social e não de um modelo liberal.
Daqui resultou um partido intrinsecamente ligado ao Estado, defensor das posições do Estado, e apenas liberalizador no indispensável para uma sociedade de um País que pertence à União Europeia. Cavaco privatizou, mas ampliou substancialmente as funções do Estado Social e quase duplicou o número de funcionários públicos. Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite atacaram o défice das contas públicas, mas agravaram impostos e não reduziram o peso do Estado, menos ainda reformaram a Administração Pública.
Com isto, mais as constantes lutas intestinas em que o partido se tem envolvido na última década, o PSD afastou-se da sua matriz inicial e virou as costas ao seu eleitorado preferencial: a classe média. Se Pedro Passos Coelho for capaz de voltar a falar com ela, se lhe apresentar um programa político que passe por uma concepção do Estado português que não se limite a tentar recuperar o Estado Social, tarefa que deve caber a um partido socialista e não a um partido liberal e reformista, ele poderá, de facto, protagonizar o volte-face político de que o País há muito espera do PSD.
Rui Albuquerque
De
Tric a 30 de Abril de 2008 às 15:40
a questão é saber se o Liberalismo de Pedro Passos Coelho se vai fundamentar nos valores Cãncios ou nos valores cristãos ? falta responder a esta questão !
Bom, dado o número de vezes que a mesma pessoa coloca a pergunta (sempre que há um post novo), parece que está confirmado: temos aqui um adversário de PPC. ;- )
É bom sinal: a insistência em desviar a atenção dos pontos fundamentais do projecto para assuntos menos prioritários (ou em alguns casos até despropositados) prova a solidez da candidatura.
Um bom líder mantém uma estratégia de comunicação serena e clara: foca apenas aquilo a que dá prioridade, não cria ruído com outros temas neste momento de importância secundária.
Já agora, como eu também sou persistente, deixe-me esclarecer mais um ponto: não há necessariamente um conflito entre todos os "valores Câncios" (como os designa) e todos os valores Cristãos". PPC já enunciou quais são os valores que o norteiam (ver post abaixo). Discorda de algum deles?
Um bom líder do PSD só por extraordinária coincidência teria uma opinião igual exactamente igual à sua (ou à minha, ou de qq outra pessoa), só por incrível acaso partilhará exactamente dos mesmos valores, no mesmo grau. E qual é o problema disso? O que interessa é que haja um consenso mínimo quanto ao projecto que se pretende levar a cabo. E o facto é que as ideias de PPC (naquilo que é relevante neste momento) são mais próximas das minhas do que as de qualquer outro candidato.
De
tric a 30 de Abril de 2008 às 17:17
Um lider tem que ser clarissimo no que toca aos valores que pretende introduzir na sociadade quando entra em eleições , quem vota nele tem que saber ao que vai e com quem vai !
quanto aos 10 valores apresentados por Passos Coelho , são muito bonitos , mas só poderei fazer um juizo de valor em relação a eles , com a seguinte informação :
Pedro Passos Coelho defende ou não o casamento Gay ou adopção de crianças por parte dos gays ?
como deve imaginar , a resposta a esta questão vai influenciar a forma de como irei ler aqueles 10 valores , sem ela , parecem-me bastantes vagos ...
e um lider deve ser claro!!!!!!!!!!
No meu entender, a candidatura de Pedro Passos Coelho define-se numa linha de pensamento e de programação política, como disse, há muito abandonada pelo Partido Social-Democrata.
O futuro está em menos Estado e mais responsabilização dos cidadãos pelos seus próprios actos, pela forma como administram a sua "estratégia de vida", que, necessariamente, se insere no capítulo da liberdade individual, um dos aspectos mais relevantes do código de valores defendido pelo liberalismo.
Tem sido a tónica dominante dos anteriores governos aumentar os impostos para suprir à crise, ou melhor dizendo, alimentar o estado social, estado social esse a ser lido no sentido lato da expressão, se se atender à função empregabilista assumida pelo Estado cujo vivo exemplo é os “jobs for the boys”, traduzido no consequente aumento dos funcionários públicos que têm vindo a adensar a “massa laboral” das instituições públicas - e das autarquias locais -.
O futuro, longínquo em Portugal, encaminha-se para um Estado única e exclusivamente com funções reguladoras e de garante da ordem pública. Mas, para chegarmos a esse estágio de cultura social, é necessário que todo um trabalho preparatório seja realizado; esse trabalho foi iniciado por José Sócrates, devendo ser continuado pelo menos por mais uma legislatura, o tempo de que PPC necessitará para se afirmar no partido da social-democracia.
Há uns anos atrás pensava que o Estado podia ser o principal motor da sociedade. Tendo estudado a fundo esta questão, apercebi-me que o Estado deve ser apenas o defensor do património nacional e local, assim como promotor dos serviços que garantam as condições mínimas de sobrevivência e dignidade humana. Tudo o resto deve ser regulado pela Lei, posta pelo poder legislativo, deixando que os actores sejam da iniciativa, funções e competências privadas. Por isso, estou a ver duas medidas que podiam ser interessantes aplicar: gestão privada para a televisão pública e para a Caixa Geral de Depósitos. Pode significar acabar, de certa forma, com o clientelismo que nos flagela desde 1834...
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