Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

No meu tempo é que era bom...

Henrique Monteiro critica esta semana no jornal Expresso o método de eleições directas no PSD. (A crítica, todavia, é igual para o PS.) Muito sumariamente, na sua opinião a única vantagem resultante das directas não compensa as diversas desvantagens. Comecemos pela vantagem que desvaloriza: «a progressão em termos de representatividade é quase nula». Ou seja, o facto de o líder ser escolhido por mil delegados em congresso ou por 50 mil militantes em eleições directas é uma progressão de representatividade quase nula. Notável, não é?

A progressão na representatividade é quase nula porque o universo a ter em conta deveria ser o dos eleitores e não apenas o dos militantes. Fica por explicar, por que motivo os eleitores -- que voluntariamente optaram por não ser militantes e, logo, por se manter à parte do processo eleitoral -- introduziriam acrescida legitimidade.

Falemos das desvantagens. A primeira é que «baixou (...) a qualidade das propostas». Infelizmente, Henrique Monteiro não se dá ao trabalho de sustentar o que afirma. Estamos a comparar as propostas apresentadas nas directas com as propostas contidas nas moções apresentadas nos congressos? Baixou a qualidade? Estamos a brincar, certo?

Em segundo lugar, «acarretou (...) um substancial aumento de populismo». Uma vez mais, a sustentação deste argumento fica para outra altura. Isto dito, estamos a brincar outra vez, certo? Não havia propostas e candidatos populistas nos congressos?

Em terceiro lugar, «terminou a possibilidade de acordos e consensos entre delegados». Pois terminou. E qual é o problema? Alguma coisa impede acordos e consensos entre candidatos nas eleições directas?

«Hoje seria impossível Cavaco vencer o congresso que venceu em 1985». Isso quer dizer que hoje seria impossível Cavaco vencer as directas? Não quer, pois não?

Em quarto lugar, as directas corresponderam a um «aumento do poder de militantes menos interessados em ideias do que em lugares nas autarquias e nas pequenas comissões disto ou daquilo». Uma vez mais, extraordinário. De facto, quem não se lembra das maratonas nos congressos em que não se discutia lugares -- discutia lá agora... -- mas apenas ideias. As listas e os diversos equilíbrios de poder surgiam por obra e graça do Espírito Santo, de certeza absoluta. Os delegados votavam ao sabor da sua opinião, ninguém procurava angariar os seus votos dando algo em troca pelo seu apoio. Os congressos, de facto, eram o paraíso na Terra.

Last but not the least, «a tendência é, por isso mesmo e cada vez mais, a de eleger candidatos que vêm de dentro dos partidos». Será?

Talvez seja. Será necessário mais tempo para confirmar essa tendência. Ainda assim, isso não seria inevitável com ou sem directas? Não corresponderá à consolidação do regime e ao fim do período excepcional que vigorou nos anos imediatamente após o 25 de Abril? Mais. Essa tendência não era já visível antes da introdução das directas?

Naturalmente, as directas não são um sistema perfeito. Diria, porém, na linha de Churchill, que as directas são o pior dos métodos, com a excepção dos outros todos...

publicado por Paulo Gorjão às 13:15
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2 comentários:
De João Espinho a 26 de Maio de 2008 às 14:17
O Paulo disse, e muito bem, o que me ocorreu quando li essa peça.
De Nuno Nasoni a 26 de Maio de 2008 às 15:33
Excelente texto
Não tenho nenhuma pachorra para o argumento de que as directas originam o populismo, ao contrário dos sereníssimos Congressos.
Alegadamente, quanto maior a base eleitoral, maior a tendência para o populismo (claro que o raciocínio levaria à conclusão de que só o mais irresponsável populista poderia ter hipóteses em legislativas).
Mas basta recordar um facto singelo. Qual foi o líder do PSD eleito pelo menor universo eleitoral de que tenho memória, no PSD? Santana Lopes! Nunca foi eleito pelas bases, e só foi confirmado em Congresso quando já era primeiro-ministro. Foi eleito pela elite das elites que participam em Congressos! E essa elite, inclusive, elegeu-o quase unanimemente (se bem me recordo, de todos os Conselheiros, só Pacheco Pereira e MFL não votaram nele). É curioso ver quem elegeu Santana Lopes na altura, e ver onde estão agora. A falar dos populistas que até poderiam, no limite, eleger... Santana Lopes!

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