Domingo, 18 de Maio de 2008

Movimento de Mudança II

Sexta-feira passada, na Foz do Douro, Porto

 

É saudável que, num país com quase 9 milhões de eleitores, o Primeiro-Ministro e o líder da Oposição sejam escolhidos (cada um deles) por um universo de menos de 40 mil pessoas (os militantes que votam no seu partido - PSD ou PS)? Menos de 1% da população! As eleições legislativas servem depois apenas para escolher, entre estas duas personagens, qual delas vai para o Governo e qual vai para a Oposição.

 

Há algo de dramaticamente errado na representatividade proporcionada pelos partidos na situação actual. Há um divórcio total entre a "sociedade civil" e os políticos. A origem do problema está, a meu ver, na fuga grave da maioria da população aos seus deveres de intervenção cívica. A solução não é acabar com os partidos actuais nem criar novas formações políticas. Será, por um lado, fazer aquilo que aqui fazemos no blog: expor a nossa opinião. Por outro, será fomentar o envolvimento de muito mais gente nas estruturas partidárias. Por outro ainda, será criar o "caldo de cultura" onde possam surgir novos líderes. A candidatura de Pedro Passos Coelho a presidente do PSD e, consequentemente, a Primeiro-Ministro já é, quanto a mim, um sinal claro desta mudança.

 

Quando um Governo nasce do resultado de um acto eleitoral, e na sequência da apresentação do seu programa que foi validado pelos eleitores, é seu dever aplicá-lo. Atendendo a que o mundo está em permanente mudança e que ninguém tem a capacidade de prever o futuro com rigor absoluto, aceita-se que a prática seja diferente do previsto no programa, precisamente para a ajustar às novas situações. Mas é preciso que as situações sejam de facto novas, e que as alterações ao programa sejam as mínimas indispensáveis.

Um exemplo caricatural: imaginemos que um partido ganhava com maioria absoluta depois de ter prometido baixar os impostos para metade e subir as pensões de reforma para o dobro. No primeiro dia de Governo, contudo, fazia exactamente o contrário: os impostos subiam para o dobro e as pensões desciam para metade. Qual era o dever do Presidente da República? Demitir imediatamente o Governo, dissolver a AR e convocar novas eleições.

 

Os eleitos têm de compreender que são representantes do povo, não são "encarregados de educação" do povo. Se se apresentam com um conjunto de ideias que é sufragado pela população, é isso que devem concretizar. Não têm mandato para tomar decisões estruturais que nunca foram propostas nem votadas, a menos que as circunstâncias fossem completamente novas e a urgência impeditiva de uma consulta popular. O PS de Sócrates não percebe isto. Ou melhor: até percebe mas faz de conta que não, porque para ele a participação da sociedade civil é um aborrecimento a evitar. Manuela Ferreira Leite não vai tão longe como o PS, mas também não assimilou completamente estes princípios.

 

Pedro Passos Coelho é realmente uma novidade. Não tanto por si próprio, até, mas pelos promissores sinais na sociedade portuguesa que ele teve o mérito de perceber e interpretar.

 

(Baseado em textos publicados recentemente n'A Baixa do Porto e no meu blog pessoal).

publicado por TAF às 17:24
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1 comentário:
De DD a 18 de Maio de 2008 às 18:42
A realidade é que a Sociedade Civil é capaz de ser bem mais inteligente e perceber que a margem de manobra dos políticos, governantes ou não, é limitadíssima
Não podem fazer aquilo que todos queríamos que é salários e pensões muito mais elevados, cuidados de saúde a um nível superior sem aumentar impostos, justiça rápida e barata, segurança policial sem custos agravados, etc., etc.
Os governos podem fazer algumas obras sem grandes custos ao conjugar o nosso "pé-de-meia" que temos em Bruxelas para investimentos com financiamentos privados e uma pequena participação estatal que até pode ser feita com terrenos, partes de empresas públicas, etc.
A ideia que os governos podem permitir a saída ilimitada dos nossos euros para fora da Europa em petróleo bruto cada vez mais caro é errada.
Os dois governos do PS fizeram uma obra apreciável no campo das energias renováveis, conjugando os referidos factores, mas isso pode chegar com as novas barragens a garantir um pouco mais de 50% do consumo nacional de electricidade sem recurso a importações de "crude", carvão ou gás. Claro, como o preço do "crude" subiu de 58 dólares quando Sócrates começou a governar aos actuais 127, o resultado financeiro é nulo e tudo indica que suba ainda mais. Produzimos mais electricidade nacional, mas gastamos cada vez porque não controlamos os preços mundiais do petróleo bruto e do gás e carvão que sobem igualmente.
Os jovens sabem isso tudo e sabem que não têm solução alguma na cabeça.
A justiça mundial implica um enriquecimento de uma parte da Humanidade pobre (China, Índia, países asiáticos e africanos) à custa de recursos naturais a que, nós os europeus e americanos, estávamos a habituados a ser os únicos a gastar.
Hoje, temos de partilhar petróleos, gás, carvão e alimentos com 3 a 4 mil milhões de pessoas que têm direito à vida e a um certo consumo. Por isso temos de inventar alternativas e é o que está ser feito com apreciável sucesso, mas levando o seu tempo.
Na China existem várias cidades com 10 milhões de habitantes e no Mundo são cada vez em maior número, o que dá bem uma imagem do pouco que podemos fazer num Mundo que sempre foi global no campo dos recursos mais importantes. Não podemos fechar as fronteiras e ter energia suficiente e uma nível de vida elevado.

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